404: Not Found Homenagem a Christian Geffray ( 1954 - 2001 ) - AFRAMO CHS

Homenagem a Christian Geffray ( 1954 - 2001 ) Conferencias, palestras e seminários

Christian Geffray (31 août 1954–9 mars 2001 )

Porquê a Aframo lançou, cinco anos atrás o Prémio Christian Geffray de Ciênbcias Sociais e Humanas? Tratou-se de prestar homenagem à memória e ao trabalho científico da C. Geffray, antropólogo francesa promissor, que faleceu demasiado depressa e demasiado jovem, aos 47 anos. Aos vinte anos do seu desaparecimento, queremos lembrar a obra e o pensamento dele. AFRAMO-CHS não esquece aquele que foi, certamente, o seu pai fundador mais antigo; o primeiro a iniciar as ciências sociais franco-moçambicanas.

Christian Geffray nos deixou uma obra vasta em livros, bem como dezenas de artigos publicados em revistas internacionais. Esta obra reflete uma forte interação entre uma fecunda e acutilante pesquisa de campo, assente em longas estadias sempre arriscadas, e a reflexão teórica continuamente alimentada pelo referido campo e estruturada por uma sólida formação filosófica e antropológica. Partindo de um marxismo crítico, sua constante preocupação em depreender as questões cruciais às sociedades periféricas que estudava determinou a escolha exigente dos seus objetos de investigação, levando-o a interrogar os conceitos da psicanálise para desenvolver o que chamou uma “antropologia analítica”.

Seu primeiro trabalho de campo, um “clássico” da antropologia, no Norte de Moçambique, deu origem a Nipère, ni mère. Critique de la parenté: le cas makhuwa (Paris, Le Seuil, 1991; edição portuguesa: Nem pai nem mãe. Crítica do parentesco: o caso macua, Lisboa, Caminho, 2000). Neste livro, Geffray demonstra, contrariando a tradição estruturalista, que as palavras existentes para designar as relações de parentesco numa dada sociedade (macua) estão em perfeita concordância com a sua organização social. Um regresso ao mesmo campo, que se tornaria palco da violenta guerra civil que devastou esse país nos anos de 1980, permitir-lhe-ia entender as razões do prolongamento e do alastramento do conflito que não se esgotavam na política regional de desestabilização do apartheid. Em La cause des armes au Mozambique: Anthropologie d’une guerre civile (Paris, Karthala, 1990; edição portuguesa: A causa das armas. Antropologia da guerra contemporânea em Moçambique, Porto, Afrontamento, 1991), demonstra, pela primeira vez, a existência de causas internas e de uma base social de apoio à guerrilha, resultantes da política de modernização autoritária do Partido no poder, na altura de inspiração marxista-leninista, e da negação das relações sociais originais no seio do campesinato.
Seu novo campo, a Amazônia brasileira, e já na qualidade de pesquisador do Institut de recherche pour le développement (Paris), levou-o a abordar novos temas igualmente cruciais, como o papel social da morte para os índios, as situações fronteiriças e os espaços violentos onde se movem os garimpeiros, os madeireiros e os narcotraficantes. Isto lhe permitiu desconstruir as relações de dominação paternalistas e os mecanismos da dívida imaginária que ligam os dependentes ao senhor (Maître). Assim sendo, codirigiu o dossiê “L’oppression paternaliste au Brésil”, publicado no volume de 1996 da revista Lusotopie(Paris, Karthala, <https://www.persee.fr/issue/luso_12...> ), e publicou Chroniques de la servitude en Amazonie brésilienne (Paris, Karthala, 1995 ; ediçãoportuguesa : A opressão paternalista : cordialidade e brutalidade no cotidiano brasileiro, Educam-Editora universitária Candido Mendes, 2007).

Um aprofundamento da reflexão teórica sobre a vida social, os ideais e o paternalismo, retomando suas pesquisas de campo e os conceitos psicanalíticos de Freud e Lacan, está na origem de Le Nom du Maître. Contribution à l’anthropologie analytique (Paris, Arcanes, 1997). Parte novamente ao campo para mais uma pesquisa aprofundada na Amazônia, desta vez na trilha perigosa do narcotráfico; esta pesquisa dará origem a quatro empolgantes relatórios (1996-98) que foram publicados postumamente pela UNESCO, no quadro do programa Most sobre o narcotráfico que o próprio Geffray dirigiu (C. Geffray, G. Fabre, M. Schiray & R. Araújo (eds),Globalisation, drugs and criminalisation : Final research report on Brazil, China, India and Mexico. Vol. 1. Executive summary, drug trafficking and the state(Part 1). Vol. 2. Drug trafficking, criminal organisations and money laundering, (Part 2). Vol. 3. Social and cultural dimensions of drug trafficking(Part 3) ; Methodological, institutional and policy dimensions of the research on drug trafficking(Part 4), Paris, UNESCO, 2002). Foi este trabalho de campo que lhe serviu de referência para a sua reflexão crítica sobre o conceito de criminalização do Estado, defendida no artigo "État, richesse et criminels", Mondes en Développement, XXVIII (110), 2000 : 15-30, num dossiê sobre « Trafic de drogues et criminalités économiques » editado por Michel Schiray(<https://horizon.documentation.ird.f...> [versão portuguesa: "Estado, riqueza e criminosos", Lusotopie, XVII (3), 2018: 356-387<https://doi.org/10.1163/17683084-12...> ].

Um outro tema, transversal as suas investigações anteriores, ocupará um lugar central nas reflexões de C. Geffray durante os seus dois últimos anos de vida: o que determina o valor dos bens na vida social. Estas reflexões serão apresentadas pela primeira vez num seminário no “Collège international de Philosophie” (1998-1999) e retomadas em Trésors. Anthropologie analytique de la valeur,livro concluído em setembro de 1999, mas cuja edição Geffray não testemunhará (Paris, Arcanes, Março 2001). Neste trabalho, Geffray formula a tese de que os pares de categorias que procuram depreender uma tensão na vida social refletem, sempre, a distinção entre dois discursos (discurso entendido no sentido de laço social utilizado por Lacan): o “discurso do dom”, voltado ao reconhecimento social, e o “discurso do mercado”, concernente à provocação do desejo no outro, hoje dominante. Nesta sua incessante articulação entre a teoria e a realidade empírica, um novo campo se avizinhava, o de Ruanda, para a abordagem de outra questão igualmente crucial a nossa atualidade: o genocídio. Dele esperávamos novas contribuições decisivas para a análise da formação do laço social e da violência, da conceitualização do Estado e das instituições, da democracia e da cidadania. A morte, tão presente ao longo da sua pesquisa, tanto nos seus estudos de caso, quanto nas suas reflexões, chegou demasiado cedo, interrompendo este brilhante percurso.

Michel Cahen & Isabel Raposo
( Publicado em 2013 pela revista Lusotopie, texto reabilitado por Michel Cahen em 2021 )

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